Os jornais da manhã apresentavam o habitual misto de política e sensação, e eu tinha-me instalado na minha poltrona após o pequeno-almoço para os ler enquanto Poirot arrumava a sua correspondência com a atenção precisa que dedicava a tudo.
"Houve quatro roubos de títulos este mês apenas," disse eu, virando uma página. "Os bancos não sabem o que fazer. E este na *Olympia* - um milhão de dólares em Liberty Bonds, Poirot. Desapareceram em algum lugar entre Liverpool e Nova Iorque. Nenhum vestígio."
Poirot pousou um envelope. "A *Olympia*. Um navio magnífico, disseram-me."
"É mesmo. Eu próprio gostaria de fazer essa travessia."
"Para mim, o mar não tem qualquer atração. O movimento - não. Não me agrada." Pegou noutro envelope. "E contudo, se pudesse garantir que permaneceria horizontal durante toda a viagem, havia algo de atrativo na ideia. Um grande transatlântico é, compreende, um pequeno mundo. E a classe criminosa, num navio assim, é da mais elevada qualidade. Nenhum outro lugar se encontram vilãos tão refinados."
Antes que eu pudesse responder, a nossa senhoria bateu à porta e anunciou uma visita. Levantámo-nos quando entrou uma mulher jovem de aproximadamente vinte e cinco anos. Tinha um ar calmo e vestia-se bem, e mantinha-se com uma firmeza tranquila que sugeria estar a fazer um esforço para o conseguir.
Poirot levantou-se de imediato. "Mademoiselle. Por favor - sente-se. Este é o meu amigo Capitão Hastings, que me assiste. Pode falar livremente."
Ela sentou-se e cruzou as mãos. "O meu nome é Esmée Farquhar. Vim falar sobre o roubo dos títulos. Sobre Philip Ridgeway."
"Conhece-o?"
"Estamos noivos." Fez uma pausa. "Nenhuma culpa direta lhe foi imputada. Todos concordam com isso. Mas o Sr. Vavasour - seu tio, um dos diretores-gerais da London and Scottish Bank - acredita que Philip foi descuidado. Que deixou vazar, de alguma forma, que estava a transportar os títulos. O Banco confiou nele e os títulos desapareceram. A sua carreira está a sofrer por isso. Quero que descubra o que realmente aconteceu."
Poirot acenou com a cabeça. "Diga-me o que sabe sobre as circunstâncias."
Ela contou de forma clara e sem rodeios. A London and Scottish Bank desejava expandir o seu crédito americano e decidiu transferir um milhão de dólares em Liberty Bonds. Vavasour escolheu Ridgeway - um funcionário de confiança que conhecia os arranjos da filial de Nova Iorque - para transportá-los pessoalmente. Na manhã do dia vinte e três, antes da *Olympia* zarpar de Liverpool, ambos os diretores-gerais - Vavasour e um Sr. Shaw - contaram os títulos na presença de Ridgeway, selaram-nos num pacote e viram Ridgeway fechá-lo no seu baú. O baú tinha um fecho especial instalado pela Hubbs, arranjado à insistência de Shaw. Em algum ponto durante a travessia os títulos desapareceram. Uma busca completa no navio não encontrou nada. Contudo, meia hora após a *Olympia* chegar a Nova Iorque, os títulos haviam sido vendidos em pequenos lotes por toda a cidade.
"E o próprio Ridgeway?" perguntou Poirot.
"Ele está no Cheshire Cheese hoje, a encontrar-me para almoçar. Ele não sabe que vim ter com você. Podiam - podiam vocês dois vir? Poderiam falar com ele diretamente."
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Ridgeway já estava à mesa quando chegámos. Era um homem de trinta anos ou próximo disso, com a mandíbula firme e olhos cansados. Olhou para Poirot com surpresa e depois com um reconhecimento que não era totalmente bem-vindo.
"Conheço o nome," disse ele, apertando a mão. "Não esperava -" Lançou um olhar para Miss Farquhar.
"Pedi a M. Poirot que ajudasse," disse ela simplesmente. "Por favor, Philip."
Ele sentou-se e durante a refeição contou a história de novo, correspondendo à conta da sua noiva em cada pormenor. Poirot ouviu sem interromper. Quando Ridgeway terminou, Poirot pousou o garfo.
"O roubo foi descoberto como, exatamente?"
"O baú tinha sido meio arrastado de baixo da minha cama. Havia marcas no fecho - alguém tinha tentado forçá-lo."
"Tentado e falhado?"
"Sim. O fecho foi eventualmente aberto com uma chave, não foi quebrado. Quem quer que fosse fez uma confusão ao tentar forçá-lo e depois abriu-o de forma limpa."
A sobrancelha de Poirot ergueu-se ligeiramente. "Isso é curioso. Se se possui a chave, por que tentar forçar o fecho primeiro?"
Ridgeway não tinha resposta.
"E a chave," continuou Poirot. "Nunca saiu da sua posse?"
"Nunca."
"Poderia o baú ter ficado destrancado? Por alguma distração?"
A mandíbula de Ridgeway endureceu. "Não."
Poirot continuou sem insistir no assunto. "Os títulos apareceram em Nova Iorque antes de Scotland Yard poder divulgar os números roubados. Antes de a alfândega poder ser avisada. Um pacote volumoso. Cada passageiro foi revistado aquando do desembarque. Como foi removido do navio?"
"Isso," disse Ridgeway, "não consigo explicar. E algumas pessoas começaram a sugerir -" A sua voz tornou-se plana. "Que os levei eu próprio. O que é igualmente impossível. Fui revistado com todos os outros."
Poirot deu-lhe um pequeno sorriso - não desagradável, mas algo privado no seu significado. Não disse mais nada sobre o assunto. Antes de partirmos, Ridgeway entregou a Poirot um cartão. "Meu tio. Isto permitir-te-á ser recebido no Banco."
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A London and Scottish Bank ocupava instalações sólidas em Threadneedle Street. O cartão de Ridgeway de Poirot foi suficiente e fomos conduzidos sem demora ao escritório dos dois diretores-gerais.
Vavasour tinha uma barba branca curta e a maneira de um homem acostumado a tomar decisões. Shaw era imberbe e mais silencioso, embora observasse Poirot com olhos cuidadosos.
"Scotland Yard já está a lidar com isto," disse Vavasour. "Inspector McNeil."
"Naturalmente," disse Poirot. "Não desejo duplicar os esforços do Inspector. Apenas algumas pequenas questões." Virou-se para Shaw. "O fecho do baú - foi arranjado por si, compreendo."
Shaw acenou com a cabeça. "Fui eu próprio a Hubbs. Não deixei para um empregado. Três chaves foram feitas. Uma para Ridgeway. As outras duas permaneceram no cofre aqui."
"Cada um de vocês tinha uma?"
"Sim."
Poirot virou-se para Vavasour. "Compreendo que o Sr. Shaw ficou doente no próprio dia em que Ridgeway zarpou?"
"Isso é correto," disse Vavasour. "Bronquite severa. Ficou confinado em casa durante todo esse período."
"Um tempo difícil," disse Poirot, "ficar sem o seu colega."
"Deixou muito trabalho adicional," disse Vavasour com rigidez.
Shaw confirmou a sua doença brevemente. Tinha apenas recuperado recentemente.
Poirot fez mais algumas perguntas - perguntas suaves, sobre o arranjo geral entre Vavasour e seu sobrinho - e recebeu respostas breves e formais. Depois fomos despedidos.
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Na calçada exterior, virei-me para Poirot esperando ouvir que tínhamos aprendido muito pouco. Em vez disso, ele parecia quase alegre.
"Não está desanimado?" perguntei.
"Pelo contrário. Estou quase decepcionado - mas apenas porque o caso é tão direto." Começou a caminhar. "Eu sei, Hastings, quem roubou os títulos."
Olhei-o fixamente. "Então, pela honra do céu, Poirot - vá a McNeil. Mande-os prender."
"Ainda não."
"Por que razão não?"
"Porque a *Olympia* regressará de Nova Iorque na terça-feira, e estou à sua espera." Levantou uma mão antes que eu pudesse objetar. "A minha própria mente não necessita de mais nada. Mas o Inspector McNeil não é a minha mente, e um júri não é a minha mente também. Recolheremos os factos que a apoiam. Custa-nos apenas alguns dias."
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Na terça-feira apanhámos o comboio para Liverpool. No cais, Poirot conduziu-me para bordo da *Olympia* de regresso com a eficiência de um homem que tinha planeado cada passo com antecedência. Falámos com quatro comissários, percorrendo os camarotes da viagem de ida, e de cada um deles Poirot extraiu a mesma figura: um senhor idoso, magro, com óculos, que se tinha queixado de problemas de saúde durante toda a viagem e que mal tinha saído do seu camarote. Um Sr. Ventnor, ocupando o camarote C 24 - precisamente ao lado do de Ridgeway.
Perguntei a um dos comissários se este Sr. Ventnor tinha sido um dos primeiros passageiros a sair do navio em Nova Iorque.
O comissário abanou a cabeça. "Não, senhor. Foi um dos últimos."
Achoei isto desalentador. Poirot achou-o, aparentemente, perfeitamente satisfatório.
"Isso," disse ele enquanto caminhávamos de novo pelo convés, "é exatamente o que esperava ouvir."
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No comboio de regresso a Londres, Poirot escreveu uma nota breve, selou-a num envelope endereçado ao Inspector McNeil e colocou-a no assento ao seu lado. Tinha também, mencionou ele, arranjado para nós cenarmos nessa noite com Miss Farquhar.
"Vai explicar tudo, então?" disse eu.
"Para si, agora. Para ela, no jantar." Recostou-se. "Comecemos pelo que é impossível. O pacote não poderia ter sido contrabandeado para fora da *Olympia* - cada passageiro foi revistado e nada foi encontrado. Não estava escondido no navio - uma busca completa confirmou isso. Existe uma possibilidade restante."
"Foi lançado ao mar."
"Sim. Mas não com os títulos dentro." Olhou-me firmemente. "Pense no timing, Hastings. Os títulos foram vistos no escritório do Banco na manhã do dia vinte e três. Apareceram em Nova Iorque meia hora após a *Olympia* ter chegado - e pelo menos um relato sugere que apareceram antes dela ter chegado sequer. A *Olympia* não pode explicar isso. Não é o navio mais rápido do Atlântico."
Sentei-me para a frente. "A *Gigantic*."
Também zarpou no dia vinte e três.
Ela detém o recorde de velocidade do Atlântico. Títulos enviados na *Gigantic* teriam chegado a Nova Iorque um dia antes da *Olympia*. Enviados por correio a um parceiro lá com instruções para vender no momento em que a *Olympia* fosse reportada no porto - o roubo parecia ter ocorrido no mar.
Volvi a ideia. "Então o pacote que Ridgeway transportava -"
"Era um boneco desde o início. Substituído no escritório do Banco na manhã do dia vinte e três, por um dos três homens presentes. Os títulos verdadeiros já estavam a caminho de Nova Iorque." Cruzou as mãos. "Mas alguém ainda tinha de viajar na *Olympia*. Alguém tinha de arranhar o fecho, para criar a aparência de roubo, para abrir o baú com uma chave duplicada, para deitar o pacote boneco para o lado do navio - e depois permanecer a bordo até ao último momento, de forma a não encontrar Ridgeway no cais de Nova Iorque. Daí o Sr. Ventnor, que estava demasiado doente para sair do seu camarote, que usava óculos, que foi um dos últimos a sair do navio. Ele depois regressou a Inglaterra o mais rapidamente possível."
Pensei nos dois homens no escritório do Banco. "Shaw," disse eu.
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"Shaw," concordou Poirot. "Ele arranjou o fecho ele próprio. Fez a viagem a Hubbs pessoalmente - nenhuns empregados envolvidos - o que lhe deu a oportunidade de obter uma quarta chave. Supostamente esteve doente com bronquite durante todo esse período. Não esteve doente. Esteve ausente." Pegou no envelope para McNeil e pousou-o de novo. "Ele tinha acesso, tinha meios, e a sua doença supostamente fornecia-lhe um álibi e uma explicação para o seu desaparecimento. Existem criminosos em lugares elevados, Hastings. É desconfortável, mas é assim."
Miss Farquhar estava à nossa espera no restaurante. Levantou-se quando entrámos, e algo na expressão de Poirot - o brilho dela - fez-a agarrar-se ao encosto da cadeira.
"M. Poirot?"
Ele pegou nas suas duas mãos, e na sua satisfação abandonou toda a contenção inglesa, beijando-a em cada bochecha. "Mademoiselle Farquhar," disse ele, sorrindo, "tive sucesso. O seu jovem não sofrerá por isto. Nem um dia mais."