Hastings tinha passado a noite anterior na casa de Gerald Parker, e a história que trouxe no dia seguinte de manhã era, na sua opinião, muito boa.
"Um puzzle para si, Poirot," disse ele, sentando-se na cadeira com a satisfação de um homem que acredita ter algo importante para dizer.
"Embora eu confesse que talvez já tenha resolvido."
Ele contou a noite: o apartamento de Parker, a conversa sobre procurar casa, e a rapariga jovem chamada Mrs. Robinson — alta, loira, com cabelo vermelho-ouro e olhos muito azuis — que tinha mencionado muito casualmente que ela e o seu marido tinham encontrado um apartamento em Montagu Mansions, perto de Knightsbridge, por oitenta libras por ano sem taxa inicial e apenas cinquenta pelo mobiliário.
"Parker quase caiu da cadeira," disse Hastings.
"Ele disse que era impossível.
Apartamentos em Montagu Mansions custam muito mais que isso."
"E mesmo assim ela tinha alugado?" perguntou Poirot.
"Tinha.
Ela disse que lhe parecia estranho também.
Os agentes — Stosser e Paul — disseram-lhe que o apartamento estava no seu livro há muito tempo e tinha sido mostrado a muitas pessoas.
Provavelmente já estava alugado, disseram eles.
Mas no caminho lá, ela e o seu marido encontraram a amiga Elsie Ferguson nas escadas, que lhes disse que o apartamento estava alugado.
Mesmo assim subiram, descobriram que não estava alugado, foram mostrados pela empregada, conheceram o inquilino, e fizeram o negócio no local."
"E Mrs. Ferguson?" perguntou Poirot.
"Apartamento errado, penso eu.
Parker fez a mesma pergunta e sugeri a mesma coisa.
Mrs. Robinson parecia muito satisfeita com a explicação."
Hastings fez uma pausa.
"Eu teria gostado que estivesse lá para ver o meu raciocínio."
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Poirot não parecia partilhar a sua satisfação.
Ele fez várias perguntas sobre rendas em Knightsbridge, em Mayfair, em Kensington, em áreas menos na moda.
Depois vestiu o casaco e o chapéu e saiu.
Ele voltou uma hora depois com grande entusiasmo, que em Poirot se manifestava como um movimento mais rápido e um brilho particular nos olhos.
"A renda verdadeira de um apartamento em Montagu Mansions," disse ele, tirando o casaco com cuidado, "é trezentas e cinquenta libras por ano."
Hastings olhou para ele com espanto.
"Trezentas e — mas ela disse oitenta."
"Ela disse oitenta.
E mesmo assim muitas pessoas foram ver este apartamento, mon ami, e ele permanecia vazio.
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Um apartamento em Knightsbridge por oitenta libras por ano, mostrado a muitos, alugado por ninguém.
Não acha isso estranho?"
"Quando o diz dessa forma—"
"E Mrs. Ferguson, que disse aos Robinsons que o apartamento já estava alugado, quando não estava."
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Poirot sentou-se.
"Descreva Mrs. Robinson para mim."
"Alta.
Loira.
Cabelo vermelho-ouro, olhos azuis, bom aspecto.
Sobre o marido posso dizer pouco — altura média, nem escuro nem loiro.
Eram apenas conhecidos recentes de Parker."
"O seu primeiro nome?"
"Stella."
Poirot sorriu com isso, embora Hastings não conseguisse dizer porquê.
"Precisamos ir a Montagu Mansions," disse ele, "e fazer algumas perguntas."
O porteiro em Montagu Mansions era um homem sólido e tranquilo.
Poirot perguntou-lhe há quanto tempo Mr. e Mrs. Robinson viviam no número quatro.
"Seis meses, senhor.
Desde Michaelmas."
Hastings piscou os olhos.
Mrs. Robinson tinha-lhes dito na casa de Parker que ela e o seu marido se iam mudar no dia seguinte.
"Uma mulher alta?" perguntou ele.
"Loira, com cabelo vermelho-ouro?"
"Essa é, senhor.
Seis meses."
Fora no passeio, Poirot olhou para Hastings com algo que era quase diversão.
"Ainda acredita, mon ami, que as mulheres encantadoras sempre dizem a verdade?"
Hastings não disse nada.
Poirot foi directamente a Stosser e Paul e alugou o apartamento número oito no quarto andar — dois andares acima dos Robinsons — por aluguel mensal a dez guinéus por semana.
Antes de sairem, virou-se para Hastings.
"O seu revólver," disse ele.
"Traga-o."
Mudaram-se no dia seguinte.
O dia depois era um domingo.
Poirot deixou a sua porta aberta ligeiramente e chamou Hastings quietamente para observar sobre o corrimão.
Em baixo, os Robinsons saíram do edifício juntos — a mulher alta e loira e o seu marido sem características especiais.
Meia hora depois, a empregada saiu também.
"O apartamento está vazio," disse Poirot.
Ele levou Hastings à cozinha de serviço e ao elevador de carvão.
Desceram até ao segundo andar.
A porta de madeira na cozinha de serviço dos Robinsons estava destrancada.
Poirot tirou ferramentas do bolso do casaco e passou três minutos a trabalhar no fecho, sem dizer nada.
Quando terminou, o fecho podia ser aberto do lado do elevador.
"Bem," disse ele.
"Agora voltamos para cima."
Na segunda-feira, Poirot saiu de manhã até à noite.
Quando voltou, sentou-se e contou a Hastings uma história que tinha obtido do Inspector Japp em Scotland Yard.
Seis meses antes, planos navais tinham sido roubados de um departamento do governo americano. Os planos mostravam as posições das grandes defesas de portos e valiam uma soma considerável para qualquer potência estrangeira — o Japão em particular. A suspeita caiu sobre um jovem italiano chamado Luigi Valdarno, que tinha trabalhado no departamento e desapareceu ao mesmo tempo que os papéis. Ele foi encontrado dois dias depois no lado Este de Nova Iorque, morto a tiro. Os planos não foram encontrados nele.
Valdarno tinha estado a conviver com uma mulher chamada Elsa Hardt, uma cantora de concertos que vivia em Washington com um homem que ela chamava seu irmão. Ambos tinham desaparecido cerca da época da morte de Valdarno. Acreditava-se que Elsa Hardt era uma espia internacional de considerável habilidade, operando sob vários nomes. O Serviço Secreto Americano, enquanto a procurava, tinha também estado a observar certos cidadãos japoneses em Washington. Um desses homens tinha recentemente deixado a Inglaterra. Acreditava-se, portanto, que Elsa Hardt estava na Inglaterra.
Poirot fez uma pausa.
"A sua descrição," disse ele. "Altura um metro setenta e um centímetros. Olhos azuis. Cabelo vermelho-ouro. Aspecto loiro. Nariz direito. Sem marcas distintivas."
Hastings não disse nada durante um momento. Depois: "Mrs. Robinson."
"Precisamente." Poirot continuou. "E esta manhã, um homem moreno e de aspecto estrangeiro estava a fazer perguntas sobre os ocupantes do número quatro." Ele levantou-se. "Esta noite mantemos vigilância no apartamento. Traga o revólver, Hastings."
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À meia-noite desceram novamente no elevador de carvão, abriram o fecho que Poirot tinha preparado, e entraram no apartamento. Instalaram-se na cozinha com a porta para o corredor aberta. O apartamento estava escuro e completamente silencioso.
Eles esperaram.
Depois de uma hora e vinte minutos, Hastings ouviu arranhões na porta da frente.
"Alguém está a cortar a fechadura," sussurrou Poirot. "Quando der o sinal — agarre-o por trás. Ele terá uma faca. Tenha cuidado."
A fechadura cedeu. A porta abriu-se. Um homem entrou no corredor. Quando o raio da sua lanterna varreu o chão, Poirot disse uma palavra.
Hastings atacou. Ele tinha os braços do homem presos enquanto Poirot atirava um lenço de lã sobre a sua cabeça, cobrindo a sua boca. Hastings arrancou uma adaga da mão do homem.
Com o lenço ainda no lugar, Poirot inclinou-se para o ouvido do homem e falou rápido e quietly. Depois de um momento, o homem acenou.
Poirot removeu o lenço. O homem não era japonês. Era italiano, de rosto moreno, talvez trinta anos, com a aparência de alguém que tinha estado a viajar há muito tempo com muito pouco descanso.
Sem mais uma palavra dita no apartamento, Poirot os levou a todos para fora e desceu à rua, onde um táxi estava à espera. Ele deu ao motorista um endereço em St. John's Wood.
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A casa era pequena e recuada da estrada. Poirot bateu e tocou a campainha até que um homem em roupão abriu a porta alguns centímetros e perguntou o que queriam.
Poirot tornou-se, muito repentinamente, um francês perturbado. O seu inglês desabou. A sua esposa estava doente, disse ele — muito doente — precisava de um médico, tinha-lhe dito que havia um médico nesta casa—
O homem disse que não havia médico lá.
Poirot ameaçou chamar a polícia. Começou a recuar pelos degraus da frente, ainda a falar alto. O homem veio atrás dele para o parar, e Poirot empurrou-o pelos degraus, passou por ele, e os três estavam dentro. A porta foi trancada.
Poirot colocou o italiano atrás das cortinas de veludo pesado na sala da frente. Depois esperaram.
Uma mulher alta apareceu na porta. Ela usava um quimono escarlate, e o seu cabelo vermelho-ouro estava solto. Ela olhou para Poirot e para Hastings e exigiu saber quem eles eram e onde estava o seu marido.
"Espera-se," disse Poirot agradavelmente, "que ele não apanhe uma constipação. Ele está lá fora de pantufas."
A expressão da mulher não mudou. "Quem são?"
"Trouxemos alguém para o conhecer, mademoiselle. Alguém que veio de muito longe de Nova Iorque para este propósito."
O italiano saiu de trás da cortina. Ele estava a segurar o revólver de Hastings — Poirot, revelou-se, tinha-o deixado no táxi para ele.
A mulher gritou. Virou-se para fugir. Poirot moveu-se para a porta e bloqueou-a.
O italiano apontou o revólver para ela. "Quem matou Luigi Valdarno?"
"Poirot—" disse Hastings agudamente.
"Cale-se," disse Poirot, sem elevar a voz. Ele olhou para o italiano. "Não dispara até eu dar a ordem." Ele olhou para a mulher. "Miss Elsa Hardt."
Ela ficou muito quieta.
"Sabe o que queremos," disse Poirot.
Ela olhou para ele durante um longo momento. Depois virou-se, apanhou um grande gato de veludo preto que estava sobre o telefone na mesa lateral, e estendeu-o para ele.
"Os planos estão cosidos no forro," disse ela.
Poirot pegou no gato e afastou-se da porta.
O italiano levantou o revólver e disparou.
Fez clique.
Nada.
A mulher já tinha desaparecido.
"Nunca permito revólveres carregados," disse Poirot ao italiano, num tom de explicação suave, "serem transportados por pessoas que não conheço bem."
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Ele continuou antes de o homem poder falar.
"E não se preocupe com Miss Hardt.
A casa está sendo observada, frente e trás.
Ela vai directamente para a polícia."
O italiano olhou para ele durante um momento, depois acenou com a cabeça brevemente e saiu.