Alguns milésimos de grau acima da temperatura mais fria que a física permite, algo dentro de um laboratório finlandês começou a fazer tique-taque. Ninguém o estava a dar corda. Ninguém estava a fornecer-lhe energia. E, no entanto, durante vários minutos, manteve um tempo perfeito.
Esse algo chama-se cristal de tempo, e pela primeira vez, cientistas conseguiram ligá-lo ao mundo exterior.
O avanço vem da Universidade de Aalto em Espoo, na Finlândia, onde uma equipa liderada por Jere Mäkinen anunciou na revista Nature Communications que tinha acoplado com sucesso um cristal de tempo a um dispositivo mecânico externo. Este é o primeiro caso em que esta fase exótica da matéria foi conectada a um sistema que os humanos podem realmente usar.
Um cristal ordinário, como sal ou quartzo, repete o seu padrão no espaço. Um cristal de tempo repete o seu padrão no tempo. O seu estado de menor energia oscila por conta própria, periodicamente, sem pressão contínua de fora. A ideia pareceu quase trapaceira quando o Prémio Nobel Frank Wilczek a propôs em 2012.
A equipa de Aalto criou o cristal de tempo dentro de um banho de hélio-3, um isótopo raro que se torna um superfluido quando arrefecido perto do zero absoluto. Usando ondas de rádio, os investigadores colocaram quasipartículas chamadas magnons no líquido frio. Depois desligaram as ondas de rádio. Em vez de ficar silencioso, o cristal de tempo oscilou por conta própria durante aproximadamente 100 milhões de ciclos, o que durou vários minutos.
A equipa colocou um pequeno oscilador mecânico perto do cristal de tempo e observou o que acontecia. Os dois começaram a comunicar. Os investigadores podem agora usar cristais de tempo em computadores quânticos e em sensores muito precisos.