Sempre considerei este caso como um dos mais singulares que Poirot e eu partilhámos — não porque a solução fosse particularmente complexa, mas pelo sítio para onde nos levou e pelo custo que teve chegar até lá.
Tudo começou com um nome que havia estado em todos os jornais durante um mês: Men-her-Ra. Sir John Willard e Mr. Bleibner de Nova Iorque estavam a excavar perto das Pirâmides de Gizé quando descobriram uma série de câmaras funerárias pertencentes a um faraó da Oitava Dinastia, e a descoberta havia aceso a imaginação pública. Depois, Sir John Willard morreu subitamente de ataque cardíaco. Os jornais agarraram-se à sua história favorita, e a Maldição de Men-her-Ra nasceu. Duas semanas depois, Bleibner morreu de envenenamento do sangue agudo. Alguns dias após isso, o sobrinho de Bleibner disparou contra si próprio em Nova Iorque. A imprensa estava satisfeita. Três mortes, uma explicação.
Recebemos uma nota de Lady Willard, viúva do arqueólogo, solicitando uma visita à sua casa em Kensington Square.
Era alta, magra, e estava vestida de luto da cabeça aos pés. Recebeu-nos numa sala de estar e foi diretamente ao assunto.
"M. Poirot, qual é a sua opinião sobre o sobrenatural?"
"A questão é pessoal, suponho, madame. Está a referir-se à morte do seu marido."
"Estou. Quero saber quanto do que está a ser dito é invenção dos jornais e quanto é real. Três homens morreram no espaço de um mês depois da tumba ter sido aberta. Cada morte é explicável por si só. Em conjunto, são quase impossíveis de aceitar como coincidência." Ela apertou as mãos. "E tenho medo de que ainda não tenha acabado."
"Por quem teme?"
"Pelo meu filho. Sir Guy Willard. Ele foi para o Egito depois da morte do seu pai para recolher o corpo, e depois — contra os meus desejos — regressou lá para continuar as escavações. Quero que o proteja, M. Poirot. Até de influência oculta, se tal coisa existe."
Poirot ficou silencioso por um momento. "Acredito muito na força da superstição, madame. Farei tudo o que estiver ao meu alcance para proteger o seu filho."
Ele perguntou sobre os outros membros da expedição. Lady Willard nomeou-os: Dr. Tosswill, ligado ao Museu Britânico; Mr. Schneider do Museu Metropolitano em Nova Iorque; um jovem secretário americano chamado Harper; Dr. Ames, o médico da expedição; e Hassan, criado egípcio pessoal do seu falecido marido. Acrescentou que não conhecia o sobrinho de Bleibner até ler a notícia da sua morte, e que Bleibner nunca havia aparentemente falado do rapaz a ninguém.
Na rua, expresssei alguma surpresa pela aparente disposição de Poirot em aceitar causas sobrenaturais.
"Disse que acreditava na força da superstição, mon ami. Não é a mesma coisa. Começaremos por enviar um telegrama para Nova Iorque pedindo tudo o que possam dizer-nos sobre a morte do jovem Bleibner. E amanhã partimos para o Egito."
O telegrama que regressou foi detalhado. Rupert Bleibner tinha andado à deriva durante anos pelas Ilhas dos Mares do Sul, vivendo mal como beneficiário de uma pensão. Tinha regressado a Nova Iorque, pedido dinheiro emprestado para uma passagem para o Egito, dizendo às pessoas que tinha um bom amigo lá de quem poderia pedir emprestado. O seu tio tinha-lhe recusado um único cêntimo, anunciando que o seu dinheiro estava destinado ao seu trabalho de vida e que tinha estado a discutir o assunto com Schneider. Rupert regressara a Nova Iorque, retomara a velha vida dissoluta, e atirou-se a si próprio, deixando uma carta em que se chamava de leproso e proscrito, e dizia que gente como ele era melhor estar morta.
Avanei uma teoria durante a viagem. Rupert tinha tentado envenenar o seu tio. Sir John Willard tinha recebido a dose por acaso. Quando a notícia da morte do velho chegou a Rupert, ele percebeu que tinha matado um homem inocente por nada, e a culpa o destruiu.
"É uma teoria engenhosa," disse Poirot, de baixo do cobertor que tinha arrumado à sua volta na espreguiçadeira de convés. "Pode estar correta. Mas ainda não desconsidero a influência da tumba." Fechou os olhos. "Além disso, vou estar muito doente pelo resto desta travessia, e preferia não discuti-lo mais."
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Ainda estava a sofrer quando desembarcámos, e continuou a queixar-se durante o estágio final da jornada — sobre a areia, sobre o calor, sobre o que chamava a desordem fundamental da paisagem egípcia. Tentou um camelo e falhou completamente, transferindo-se para um burro com toda a dignidade que lhe restava. Não ri. Tentei muito não rir.
Um homem de barba queimada pelo sol em roupas brancas veio ao nosso encontro quando nos aproximámos do local e apresentou-se como Dr. Tosswill. A sua cara estava séria.
"Infelizmente, chegaram para encontrar as coisas piores do que esperavam. Outra morte. Não é Sir Guy —" disse isto rapidamente, vendo a minha expressão — "Mr. Schneider. O americano. Tétano."
Ele levou-nos a uma grande tenda onde Sir Guy Willard estava sentado com Dr. Ames e o secretário Harper. Sir Guy estava pálido e visivelmente esforçado, mas levantou-se, apertou as nossas mãos e disse, com bastante firmeza, que o trabalho continuaria independentemente.
"Meu pai acreditava nesta escavação. Não vou abandoná-la."
Harper e Tosswill retiraram-se. Poirot virou-se para Dr. Ames, um homem compacto e de aparência capaz, e começou a fazer perguntas no tom mais suave possível.
Ames confirmou que Schneider tinha morrido de tétano — não de estricnina, nada ambíguo — e que a morte de Bleibner tinha sido septicemia por um corte envenenado, uma condição inteiramente diferente. Poirot aceneu pensativamente.
"Portanto. Temos quatro mortes. Ataque cardíaco. Envenenamento do sangue. Suicídio. Tétano. Cada uma diferente. Cada uma natural." Fez uma pausa. "Doutor, algum destes homens cometeu algum acto de desrespeito em relação ao espírito de Men-her-Ra?"
Ames olhou para ele abertamente. "Isso é absurdo."
"Talvez. O que pensam os trabalhadores nativos?"
Uma pausa ligeira. "Têm medo. Mas os nativos têm sempre medo com este tipo de coisa."
Poirot tirou do bolso do seu casaco um livro pequeno e antigo intitulado *A Magia dos Egípcios e Caldeus*, meteu-o debaixo do braço, e saiu da tenda sem mais uma palavra.
Encontrei-o alguns minutos depois a falar com Harper perto das caixas de equipamento. Harper era um jovem magro e parecia, pensei eu, que não tinha dormido em vários dias.
"Rupert Bleibner veio ao acampamento," estava a dizer Harper a Poirot. "Apenas uma vez. Ele e o seu tio tiveram uma discussão imediatamente — suficientemente alta para todos ouvirem. O velho disse que não lhe daria um cêntimo, que o seu dinheiro estava comprometido, que tinha estado a organizá-lo com Schneider. Rupert foi embora para o Cairo no mesmo dia." Harper baixou a voz. "Disse que algo estava errado com ele. Não pensei muito nisso na altura."
"Bleibner deixou um testamento?"
"Não que se saiba."
Harper endireitou-se e olhou para Poirot diretamente. "Estou a deixar para Nova Iorque assim que conseguir arranjar-me. Não vou ser o próximo."
"A maldição já chegou a uma das suas vítimas em Nova Iorque," observou Poirot agradavelmente, e virou-se. Harper ficou a olhar para ele, parecendo consideravelmente menos tranquilo do que antes.
Nessa tarde fomos mostrados através das escavações — as câmaras cortadas fundo na pedra, as paredes pintadas, as figuras esculpidas de deuses a observar de cada superfície. Anúbis aparecia repetidamente: a cabeça de chacal, os ombros estreitos, as mãos compridas.
Essa noite, enquanto nos preparávamos para dormir, Sir Guy falou silenciosamente.
"Ali. Entre as tendas."
Uma figura moveu-se na escuridão — alta, com a cabeça de um cão. Era a forma de Anúbis, exatamente como aparecia nas paredes da tumba.
"Alguém está a fazer uma brincadeira," disse Tosswill rapidamente.
Ames e eu fomos procurar. Não encontrámos nada.
Quando regressámos, Poirot estava de cócoras na areia fora da tenda, desenhar padrões cuidadosos com uma vara. Fez uma breve palestra sobre as propriedades protetoras do pentagrama e símbolos relacionados. Tosswill deixou claro o seu desprezo e foi para a cama. Sir Guy seguiu-o.
Dentro da tenda, Poirot instalou-se no seu catre com todos os sinais de satisfação. "Podemos dormir sem preocupação, mon ami. Embora confesse que a minha cabeça dói. Gostava muito de chá de camomila."
Hassan apareceu na entrada da tenda quase de imediato com uma chávena. Poirot agradeceu-lhe com prazer evidente. Hassan ofereceu uma segunda chávena para mim; recusei, e ele retirou-se.
Fiquei na entrada da tenda durante alguns minutos, olhando para o deserto. A areia era pálida sob a lua. Quando me virei para trás, Poirot estava deitado convulsionado no seu catre, a chávena vazia ao seu lado.
Comi.
Bati no lado da tenda de Ames e disse-lhe para vir imediatamente, e enquanto ia disse que Hassan não deveria deixar o acampamento. Ames veio a correr.
Poirot estava sentado direito no catre, completamente composto, a observar a entrada da tenda. "Não bebi o chá," disse.
Enquanto eu tinha estado a olhar para o deserto, ele tinha despejado o conteúdo da chávena numa pequena garrafa. A garrafa já estava num lugar seguro.
Ames tinha parado logo na entrada. Algo se moveu na sua cara — não surpresa, pensei eu. Ou não apenas surpresa.
"A violência seria inútil, Doutor," disse Poirot. "Devo dizer-lhe isso de imediato."
Movi-me para me posicionar na frente de Poirot. Pensei que era o que ele tinha significado quando disse para manter o doutor — estava errado. A mão de Ames tinha ido à sua própria boca. O cheiro chegou-me meio segundo depois: amêndoas amargas. Ames deu um passo em frente e caiu.
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Poirot sentou-se na borda do catre e explicou-mo enquanto o acampamento lá fora gradualmente acordava com o som de vozes.
"Nunca acreditei na maldição," disse. "Acreditei desde o início que alguém estava a usar a atmosfera da maldição — usando a superstição que a morte de Sir John tinha criado — como cobertura para assassinato deliberado. Mas quem era a vítima pretendida, e porquê?"
Ele tinha enviado um telegrama para Nova Iorque pedindo o relatório sobre Rupert Bleibner, e dois detalhes nesse relatório tinha-lhe chamado a atenção. Primeiro: Rupert tinha dito às pessoas em Nova Iorque que tinha um bom amigo no Egito de quem poderia pedir dinheiro emprestado. Se tivesse significado o seu tio, teria dito o seu tio. Significava outra pessoa. Segundo: depois do seu tio lhe ter recusado tudo, Rupert de alguma forma encontrou o dinheiro para a sua passagem de regresso para Nova Iorque. Alguém tinha-o dado.
"Ames," disse eu.
"Ames. Um antigo amigo da vida anterior de Rupert, e um médico. Rupert tinha uma condição de pele menor — o tipo de condição comum o suficiente, e alarmante o suficiente para parecer, e associada na mente pública com as Ilhas dos Mares do Sul, onde Rupert tinha vivido durante anos. Ames disse-lhe que tinha lepra. Rupert acreditou absolutamente, porque confiava no seu amigo, que era um médico. Rupert disparou sobre si próprio em desespero, e escreveu na sua carta que era um leproso, e todos assumiram que ele estava a falar em reprovação do seu próprio caráter."
Poirot olhou para as suas mãos. "Estava a declarar um facto médico que acreditava ser verdadeiro."
"Mas o que ganhou Ames?"
"Em algum ponto — numa noite de embriaguez, um momento de brincadeira, o tipo de coisa que os rapazes fazem — Rupert tinha feito um testamento. Um testamento jocoso, deixando tudo ao amigo que uma vez o tinha tirado da água. Ames. Quando Bleibner sénior morreu e a herança passou para Rupert, e depois Rupert morreu, o dinheiro passou para Ames."
"E Bleibner sénior?"
"Inoculado com algo. Germes introduzidos numa ferida ou num corte — Ames era o médico da expedição, tinha acesso a tudo. Foi feito para parecer doença natural, e na atmosfera da maldição, ninguém questionou." Fez uma pausa. "Schneider ou sabia algo, ou foi morto para adicionar outra morte sem propósito e fazer o padrão parecer mais sobrenatural. Um assassino que tem sucesso uma vez tende a encontrar mais fácil da segunda vez."
"E a figura de Anúbis esta noite?"
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"Hassan, vestido sob a minha instrução, para testar se Ames poderia ser assustado em cometer um erro. Não conseguiu, e não foi inteiramente enganado pela minha performance com o pentagrama e o livro sobre magia. Portanto esperava que ele se movesse contra mim diretamente. O chá de camomila foi, confesso, uma ligeira surpresa — tinha esperado algo menos doméstico."
O assunto foi mantido tão silencioso quanto possível, em consideração por Lady Willard e por Sir Guy, que continuou as escavações e completou-as sem incidente adicional.
Até hoje, ocasionalmente leio artigos em que as mortes na tumba de Men-her-Ra são citadas como prova de maldições egípcias antigas. Poirot, quando mencionei isto uma vez, abanou a cabeça.
"É duplamente absurdo, Hastings. Não apenas não era uma maldição — mas os antigos egípcios não acreditavam, de facto, que os mortos pudessem prejudicar os vivos dessa forma. A maldição de Men-her-Ra foi inventada pelos jornais, construída pelo assassino, e agora é preservada por pessoas que nunca leram um único livro sobre o assunto." Apanhou o seu *A Magia dos Egípcios e Caldeus* da mesa lateral e observou-o com algum afeto. "Este volume, agora — isto é bastante interessante. Posso ficá-lo."