Em dezembro de 2001, cuidadores no Zoo Henry Doorly em Omaha, Nebraska, notaram algo impossível. Três tubarões fêmeas da espécie bonnethead partilhavam um tanque há cerca de três anos. Nenhum macho tinha sido introduzido no seu tanque durante todo esse período. No entanto, de repente, um filhote recém-nascido nadava na água.
A chegada surpreendeu a comunidade científica. Inicialmente, os investigadores assumiram um truque biológico simples. Sabe-se que as fêmeas de tubarão retêm esperma internamente por longos períodos. De facto, espécies relacionadas como o tubarão-bambu-listrado podem manter esperma viável por até 45 meses. Demian Chapman, um proeminente investigador de tubarões, observou que quase todos os biólogos esperavam inicialmente que o armazenamento de esperma fosse a resposta.
No entanto, a análise genética revelou uma realidade muito mais espetacular. O filhote possuía material genético exclusivamente da sua mãe. Não houve qualquer contribuição de um pai macho.
Este fenómeno é conhecido como partenogénese. Ocorre quando um óvulo não fertilizado se desenvolve num organismo vivo sem esperma. Em tubarões, isto acontece através de um mecanismo específico chamado fusão terminal, onde o óvulo se funde com uma célula geneticamente idêntica criada durante o mesmo ciclo reprodutivo. Embora os cientistas soubessem que isto podia acontecer noutros vertebrados, nunca tinha sido documentado em peixes cartilaginosos antes desta descoberta.
Durante algum tempo, os especialistas acreditaram que este era estritamente um plano de contingência para fêmeas isoladas. Robert E. Hueter, um diretor de investigação de tubarões, observou que quase todos os biólogos esperavam inicialmente que o armazenamento de esperma fosse a resposta. Kevin Feldheim, um investigador do Field Museum de Chicago, explicou que se uma fêmea se encontra numa área sem machos, este processo permite-lhe continuar a passar os seus genes.
Depois, um tubarão-zebra chamado Leonie mudou as regras novamente. Leonie vivia no Aquário Reef HQ em Queensland, Austrália. Ao contrário das bonnethead de Omaha, Leonie não era virgem. Tinha acasalado com sucesso com um companheiro macho e produzido crias. Mas em 2012, o seu parceiro macho foi transferido para outra instalação. Quatro anos depois, entre fevereiro e abril de 2016, Leonie deu à luz três filhotes saudáveis. Testes de ADN confirmaram que estas novas crias foram produzidas assexuadamente. Ela tinha mudado com sucesso a sua estratégia reprodutiva de sexual para assexual.
As surpresas não pararam por aí. Em 2008, um tubarão-zebra fêmea no Shedd Aquarium em Chicago gerou crias através de partenogénese. O detalhe chocante foi a sua situação de vida. Partilhava o seu habitat com vários machos vigorosos e férteis. Apesar de ter tido oportunidade de acasalar normalmente, o seu corpo ainda escolheu a via assexual.
Embora estas descobertas sejam fascinantes, elas trazem uma sombra escura para o futuro da vida marinha. As crias nascidas desta forma enfrentam desvantagens biológicas graves. Como recebem todo o seu material genético de um progenitor, exibem uma característica chamada homozigotia. Isto significa que têm uma variação genética drasticamente diminuída em comparação com animais nascidos de dois progenitores.
Esta falta de diversidade leva frequentemente a resultados trágicos. As crias produzidas assexuadamente sofrem frequentemente de doenças recessivas raras e têm vidas muito curtas. As crias nascidas no Shedd Aquarium sobreviveram apenas alguns meses. Noutro caso documentado envolvendo um tubarão-zebra, de 47 ovos, apenas seis desenvolveram embriões vivos, e todos eles pereceram em 94 dias.
O Dr. Mahmood Shivji, que dirige o Guy Harvey Research Institute, apontou que estes animais carecem da diversidade genética do pai e nem sequer possuem a constituição genética completa da mãe. Isto cria uma desvantagem evolutiva significativa.
Isto não é apenas uma peculiaridade de aquário. Investigadores que realizam perfis genéticos de rotina em estuários da Florida descobriram sete peixes-serra pequenos imaturos que nasceram através de partenogénese. Representavam cerca de três por cento da população local examinada.
À medida que as populações globais de tubarões enfrentam uma pressão intensa da sobrepesca e da perda de habitat, encontrar parceiros torna-se cada vez mais difícil na natureza. O Dr. Paulo Prodohl da Queen's University Belfast alertou que, embora os vertebrados geralmente tenham evoluído para longe da reprodução assexuada para aumentar o seu potencial evolutivo, os tubarões podem estar a voltar a ela. A preocupação premente é que o declínio dos números possa forçar mais tubarões selvagens a este canto reprodutivo, deixando as populações sobreviventes mais fracas e menos equipadas para lidar com um oceano em mudança.