Quando exploradores holandeses chegaram à ilha Maurícia em 1598, encontraram uma ave grande e incapaz de voar que não demonstrava qualquer medo. Os animais aproximavam-se dos novos e estranhos visitantes humanos. Quando uma ave ficava ferida, outras reuniam-se para ajudar. Esta notável confiança permitiu aos caçadores capturá-las com quase nenhum esforço. Em menos de um século, as criaturas únicas desapareceram completamente.
Durante centenas de anos, a história julgou o dodô severamente. A ave tornou-se um símbolo global de estupidez, uma reputação cimentada pela sua falta de cautela em relação aos humanos. No entanto, um estudo inovador de 2026, publicado no Zoological Journal of the Linnean Society, prova que esta narrativa não é merecida.
Uma equipa internacional de investigação, liderada pela Universidade de Lethbridge, no Canadá, decidiu analisar o interior da cabeça da criatura extinta. Como as aves desapareceram há tanto tempo, encontrar restos intactos é incrivelmente difícil. De facto, existem apenas três crânios de dodô totalmente intactos em coleções de museus hoje em dia.
Para resolver o mistério do intelecto da ave, os investigadores usaram tomografia computorizada avançada, ou TC. Esta tecnologia de raios-X permitiu-lhes criar modelos digitais tridimensionais da anatomia interna sem danificar os delicados ossos. O esforço colaborativo utilizou recursos e conhecimentos do Smithsonian Institution, dos National Museums Scotland e da Universidade de Copenhaga. Eles digitalizaram espécimes raros guardados em instituições como o Natural History Museum Denmark e o Oxford University Museum of Natural History.
Os modelos digitais revelaram um cérebro que correspondia perfeitamente às proporções de espécies de pombos relacionadas. Ao olhar especificamente para o córtex cerebral, a região do cérebro responsável pela aprendizagem e armazenamento de memória, o dodô era completamente normal.
"Não há evidências de que o dodô fosse menos inteligente do que os seus parentes", disse o Professor Associado Andrew Iwaniuk, que dirigiu a equipa de investigação. Ele acrescentou que, embora a ave tivesse uma cabeça estranhamente abobadada, o seu centro cognitivo tinha exatamente o tamanho esperado para o seu corpo. Isto é significativo porque os membros da família dos pombos são conhecidos por possuírem considerável capacidade mental e responderem bem ao treino. O parente vivo mais próximo do dodô é o pombo Nicobar, enquanto o seu parente extinto mais próximo foi o massivo solitário Rodrigues.
As digitalizações também revelaram uma grande surpresa sobre como o dodô vivia. Os modelos digitais mostraram que a ave tinha globos oculares aumentados, mas centros de processamento visual diminuídos.
A Professora Vera Weisbecker, da Flinders University, colaboradora do projeto, explicou que estas características são comuns em aves que navegam no escuro. Ela observou que lobos óticos pequenos semelhantes são encontrados no elusivo papagaio-noturno australiano e no kakapo, incapaz de voar, da Nova Zelândia. Estas espécies dependem muito pouco da visão e são ativas principalmente após o pôr do sol.
Esta evidência aponta para uma conclusão fascinante. O dodô era provavelmente ativo durante o crepúsculo ou na escuridão total. Esta adaptação torná-lo-ia o único membro noturno conhecido da família dos pombos. Os investigadores também descobriram que o dodô tinha uma região olfativa altamente desenvolvida, o que significa que provavelmente dependia muito do seu olfato para encontrar comida em ambientes com pouca luz.
Sara Citron, candidata a doutoramento na Universidade de Lethbridge e investigadora principal do estudo, acredita que este horário noturno serviu a um propósito específico. Ela sugeriu que ser ativo à noite poderia ter ajudado o dodô a evitar competir por comida com as tartarugas gigantes que partilhavam o seu lar no Oceano Índico.
A verdadeira causa do declínio do dodô não foi a falta de inteligência. A ave evoluiu numa ilha isolada, completamente livre de predadores naturais. Simplesmente nunca precisou de aprender o medo. Quando os colonos chegaram, trouxeram espécies invasoras como ratos, porcos e macacos. Esta combinação de caça humana e predadores introduzidos dizimou as aves confiantes.
"Chamar-lhes 'estúpidos' por serem ingénuos faz parecer que mereciam extinguir-se, o que é muito injusto", disse Citron.
O dodô não foi uma criatura tola a tropeçar rumo ao seu próprio fim. Foi um sobrevivente único, que vagueava à noite, perfeitamente adaptado ao seu pacífico lar insular. O seu único erro foi confiar nos humanos que eventualmente o destruíram.