Regressei a Londres numa quinta-feira à tarde e encontrei Poirot de pé no meio da nossa sala de estar. Uma pequena mala aberta estava na mesa e ele tinha um ar de urgência.
"Chegou no momento exato," disse ele, levantando uma camisa dobrada. "Arrume algumas coisas para uma noite fora, mon ami. Partimos em quarenta minutos."
"Para onde vamos?" "Essex. Uma aldeia chamada Marsdon Leigh." Ele colocou a camisa na mala. "Ouviu falar talvez da Northern Union Insurance Company?"
Não tinha ouvido. "Não importa. Têm um problema e pediram a minha ajuda. Um homem chamado Maltravers assegurou a vida recentemente por cinquenta mil libras. Dois dias atrás encontraram o seu corpo na sua casa - Marsdon Manor - morto por aquilo que parece ser uma hemorragia interna." Ele fez uma pausa. "A dificuldade é que Maltravers estava à beira da falência total."
"E a apólice tem uma cláusula de suicídio." "Précisément. Então. Arrume-se depressa."
Apanhámos o comboio e chegámos à estação de Marsdon Leigh no início da tarde. Um funcionário disse-nos que a casa ficava a cerca de uma milha pela estrada.
"Então caminhamos," disse Poirot, pegando na mala. "E a nossa primeira visita será ao médico local. Dr. Ralph Bernard, creio."
Encontrámos a sua casa sem dificuldade e fomos recebidos quase imediatamente. O Dr. Bernard era idoso, com o ar lento de um homem que não se tinha surpreendido com nada em vinte anos. Recebeu-nos na sua sala de consulta e ouviu enquanto Poirot explicava que estávamos ali em nome da Companhia de Seguros.
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"Suponho que Maltravers era um homem rico," disse o doutor. "Tinha dois carros. A casa é muito grande." "Tinha na verdade sofrido perdas financeiras graves," disse Poirot.
O doutor levantou as sobrancelhas ligeiramente. "Bem. Feliz para a mulher, então. Uma mulher muito bela. Estava num estado nervoso desde a morte - tentei poupar-lhe o máximo que pude."
"Estava a tratar do Sr. Maltravers regularmente?" "Não, não. Ele nunca me consultou. Alguma forma de Christian Science, creio - ou algo assim. Fui chamado ao corpo por um dos ajudantes de jardineiro." O doutor recostou-se. "Encontrei-o deitado à beira de uma pequena plantação. Um rifle de corvo perto dele. Sangue nos lábios. Imagem clássica de uma úlcera gástrica. Hemorragia interna, sem dúvida."
"Não havia hipótese de uma ferida de bala?" O doutor ficou rígido. "Certamente que não." "Pergunto apenas porque num caso recente um colega experiente não viu inicialmente uma bala através da cabeça de um morto -" "Não há nada assim aqui." O doutor levantou-se. "Não vi razão para ordenar uma autópsia. Teria apenas causado sofrimento à família." Dirigiu-se para a porta. "Creio que isto cobre tudo, cavalheiros." A porta fechou-se com alguma força atrás de nós.
Caminhamos pela estrada acima em direção à casa.
"Bem," disse eu, "o homem é um velho tolo." "É," concordou Poirot com agrado. "Embora eu diga, Hastings, que os seus julgamentos de caráter são geralmente fiáveis - exceto quando uma mulher bela entra em cena." Não respondi a isso.
A criada da câmara em Marsdon Manor era de meia-idade e eficiente. Pegou no cartão de Poirot e na carta da Companhia de Seguros, levou-nos para uma sala matinal e foi-se embora. Cerca de dez minutos depois apareceu a Sra. Maltravers.
Tinha vinte e sete ou vinte e oito anos, muito loura, com grandes olhos azuis. Estava vestida de negro e os seus olhos estavam inchados e vermelhos. Apesar disso era claramente bela. "Isto é realmente necessário tão cedo?" perguntou.
"Peço desculpa por incomodá-la no seu luto, madame," disse Poirot. "Mas para uma apólice deste tamanho, a Companhia deve verificar certos detalhes. Poderia contar-me o que aconteceu na quarta-feira?"
Ela sentou-se e controlou-se. "Estava em cima a mudar para o chá quando a minha criada me veio dizer que um dos jardineiros tinha encontrado meu marido. Tinha-o visto por último ao almoço. Essa tarde tinha caminhado até à aldeia para comprar selos. Enquanto estava fora ouvi um ou dois disparos do terreno - ele costumava sair com o rifle de corvo."
"Onde está o rifle agora?" Ela foi para o corredor e voltou com ele. Poirot examinou-o brevemente, notou que dois disparos tinham sido feitos, e devolveu-o.
"Desculpe-me, madame - há algo lá em cima que gostaria de ver." Ele foi indireto sobre o que queria, mas ela acenou à criada, que o levou para cima. Fiquei com a Sra. Maltravers. Falámos apenas um pouco - disse-lhe como estava arrependido, e ela agradeceu-me tranquilamente. Poirot voltou em menos de cinco minutos.
Antes de partir parou à porta. "Mais uma pergunta, madame. A situação financeira do seu marido - estava consciente dela?" "Não sou boa com assuntos de negócios."
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"E o seguro de vida - ele nunca tinha assegurado a vida antes. Porque o fez agora?" Ela olhou para a janela. "Estava convencido de que não viveria muito tempo. Já tinha sofrido uma hemorragia e acreditava que um segundo ataque o mataria. Tentei tranquilizá-lo, mas -" Ela parou. "Tinha razão, parece." Despediu-se com compostura e saímos.
Estávamos a meio da avenida quando Poirot parou de caminhar. "Creio," disse ele, "que não há nada aqui. O caso não tem substância. Devíamos regressar a Londres." Depois parou novamente. "Exceto," disse ele lentamente, "há uma pequena coisa." Antes de eu poder perguntar o quê, um homem jovem e alto veio a passar rapidamente pela avenida, mal olhando para nós. Vimo-lo passar. Um jardineiro que rastilhava folhas perto disse-nos que o homem tinha ficado na casa na terça-feira à noite, embora não se lembrasse do nome. "Então devemos segui-lo," disse Poirot, e virou-se para regressar à casa. Passámos pelo lado do edifício a tempo de vermos o jovem aproximar-se da Sra. Maltravers no terraço. Ela ficou pálida assim que o viu. "Pensava que estava no mar," disse ela. "A caminho do Leste de África." "Os meus advogados chegaram a mim antes de eu partir," disse ele. "O meu tio na Escócia morreu e deixou-me dinheiro. Cancelei a minha passagem." Olhou para ela com preocupação clara. "Vi a notícia sobre o seu marido no jornal. Vim ver se havia algo que eu pudesse fazer." Nesse momento deu por nós. Poirot avançou suavemente e desculpou-se - acreditava que tinha deixado o seu bastão no corredor. Isto deixou a Sra. Maltravers com pouca escolha senão apresentar-nos. Fez-o sem entusiasmo. O jovem era Capitão Black. Poirot estabeleceu que ele estava hospedado no Anchor Inn, agradeceu à Sra. Maltravers por procurar o bastão - não foi encontrado - e partimos.
Poirot caminhou de volta para a aldeia a um ritmo que me deixou ligeiramente ofegante. Foi diretamente para o Anchor Inn. "Esperamos aqui," disse ele, "até o Capitão Black regressar." Sentámo-nos na pequena sala da frente. Pedi chá. "A Sra. Maltravers ficou alarmada ao vê-lo," disse Poirot. Ele era claramente muito atencioso com ela. E estava na casa na terça-feira - a noite antes de Maltravers morrer. Pegou na sua chávena. "Isto deve ser investigado." Quando Black entrou uma hora depois, Poirot levantou-se e perguntou se podiam falar lá em cima. Black tinha talvez trinta anos, magro e bronzeado, com um ar direto. Concordou facilmente. Na pequena sala lá em cima, Poirot explicou que queria compreender o estado mental de Maltravers nos dias antes da sua morte, e que falar com alguém que tinha estado lá pouco antes pouparia pressionar demasiado a Sra. Maltravers. "Claro," disse Black. "Cheguei terça à tarde. Saí quarta de manhã para apanhar o meu navio de Tilbury ao meio-dia. Não conhecia bem Maltravers - apenas através da minha própria família. Ao jantar essa noite falámos de várias coisas. A história da sua família. Reparações alemãs. E Leste de África - contei algumas histórias sobre o meu tempo lá." "Ah," disse Poirot. "Agora, Capitão Black, há um método que uso às vezes. Um exercício de associação de palavras. Digo uma palavra e você responde com a primeira palavra que lhe vem à cabeça. Uso-o apenas para compreender a atmosfera de uma conversa - para sentir que assuntos estavam presentes essa noite. Compreende?" Black pareceu incerto. "Se achar útil." "Hastings, podia anotar as respostas?" Poirot tirou um grande relógio de bolso e colocou-o na mesa. Depois começou, rapidamente, sem dar tempo para pensar entre cada palavra. "Noite." "Lugar." "Shaw." "Jantar." "Navio." "Uganda." "Leões." "Quinta." "Suicídio." "Presas." "Advogados." "Obrigado," disse Poirot. "Seria tão amável de esperar lá em baixo talvez trinta minutos? Tenho algumas notas para rever com o meu colega." Black saiu. Olhei para o meu papel. "Bem? O que significa?" "Significa," disse Poirot, puxando a sua cadeira mais perto, "que o Capitão Black não está a esconder nada. Os seus tempos de resposta foram todos normais. Agora. Respondeu 'Shaw' a 'Bernard' - um dramaturgo, não um médico local, então ele não tinha encontrado o Dr. Bernard durante a sua visita. 'Terça' deu-lhe 'Jantar', o que é natural. 'Viagem' e 'País' deram-lhe 'Navio' e 'Uganda' - a viagem que o preocupava era a do Leste de África, não a visita a Marsdon Manor. 'História' produziu 'Leões' - uma das histórias que contou ao jantar." "E 'Rifle de Corvo' dar 'Quinta', e 'Disparo' dar 'Suicídio'?" Poirot acenou com a cabeça. "Contou uma história no jantar de terça sobre um homem que se matou com um rifle de corvo numa quinta." Chamou Black novamente para cima. Black ficou na porta. "Descobriu algo."
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"Apenas uma pergunta," disse Poirot. "Ao jantar na terça-feira, contou uma história sobre um homem em África que morreu por um rifle de corvo?"
Black sentou-se lentamente. "Sim. Um homem que conhecia ligeiramente - colocou o rifle na boca e puxou o gatilho com a mão. A bala alojou-se no cérebro. Os médicos que o atenderam primeiro ficaram confusos porque o único sinal exterior era sangue nos lábios."
"Não sabia," disse Black, "que Maltravers tinha sido encontrado com um rifle de corvo. Não tinha lido os detalhes no jornal." Olhou para nós. "A minha história - poderia ter dado a ele a ideia?"
"Não se angustie demasiado," disse Poirot. "Preciso fazer uma chamada telefónica a Londres. Tem sido muito útil." Levantou-se e apertou a mão de Black. "Venha, Hastings."
Ele esteve ao telefone durante muito tempo. Depois saiu sozinho e não voltou até ao início da noite. Às sete horas exatas colocou o casaco.
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"Não pode esperar mais. Devemos ir à casa." "Para lhe dizer?" perguntei. "Sim."
Tinha pena dela enquanto caminhávamos de volta na luz que desaparecia. Tinha sido tão composta, tão cuidadosa com o seu luto. Pensei em Black, a sua preocupação óbvia com ela, e esperei em silêncio que com o tempo ele pudesse ser algum conforto para ela.
O encontro foi doloroso. Ela recusou-se no início, a voz controlada e fria, a aceitar o que Poirot lhe disse. Depois começou a chorar. Um exame ao corpo confirmou as conclusões de Poirot.
Depois, enquanto ela se recuperava, Poirot ficou de pé perto da lareira e disse, num tom mais leve, "A aldeia acredita que esta casa é assombrada, ouvi dizer. E você, madame - já assistiu a uma sessão de espiritismo? Tem, posso dizer, uma qualidade mediúnica."
Ela olhou para cima, surpreendida fora do seu luto por um momento. "Disseram-me isso antes. Acredita em tais coisas, Monsieur Poirot?" "Vi coisas estranhas no meu tempo," disse ele simplesmente. "Ah - o jantar. Não devíamos discutir assuntos difíceis com o estômago vazio. É muito amável convidando-nos."
Tínhamos acabado de terminar a sopa quando a criada gritou no corredor e o som de louça a quebrar-se veio através da porta.
Poirot levantou-se depressa. A mulher estava encostada à parede, branca como a morte, a olhar para o corredor vazio. "Estava ali," sussurrou ela. "De pé ali. Parecia - o patrão."
A Sra. Maltravers apertou a mesa. Poirot olhou ao longo do corredor, não viu ninguém, e voltámos à sala de jantar.
Apenas nos tínhamos sentado novamente quando a Sra. Maltravers virou bruscamente a cabeça para a janela. "Ouve? Três pancadas. Era assim que ele costumava bater na janela quando tinha estado fora." "É a hera," disse eu. "O vento."
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Mas uma inquietação tinha-se instalado na sala. Duas vezes a porta abriu-se sozinha, e cada vez a Sra. Maltravers assustou-se e agarrou-se ao meu braço. A segunda vez, Poirot foi e fechou a porta firmemente e virou a chave na fechadura.
"Por favor," disse ela, a voz instável. "Não feche com chave. Se abrisse novamente depois de estar fechada - não podia suportar." Exatamente quando disse as palavras, a porta fechada abriu-se lentamente.
Ela gritou. "Está ali. No corredor. Consigo vê-lo." "Não vejo nada, madame," disse Poirot. "Está doente -" "Está ali. Consigo vê-lo."
As luzes apagaram-se. Três pancadas altas vieram de algures na escuridão. Depois, no corredor, apareceu uma figura. A forma de um homem. Uma fraca luminescência agarrava-se a ela e havia sangue, escuro e visível, nos seus lábios. Levantou a mão direita e um raio estreito de luz saiu dela, atravessando a sala e vindo repouso na Sra. Maltravers.
"Hastings!" gritei. A sua mão direita, apanhada naquele raio de luz, estava coberta de vermelho. Ela olhou para ela. Fez um som que não era palavras. Depois caiu para a frente e as palavras vieram. "Matei-o. Estava a mostrar-me como funcionava - o rifle - pus a minha mão no gatilho e pressionei-o. Ele mostrou-me a si mesmo, colocou-o na boca para me mostrar, e eu pressionei o gatilho. Faça desaparecer. Por favor. Faça desaparecer."
"Luzes," disse Poirot. A sala estava brilhante novamente. A figura à porta era um homem alto com maquilhagem teatral, uma lanterna de bolso na mão e algo luminescente no casaco. Parecia consideravelmente menos sobrenatural com a luz elétrica.
"Permita-me apresentar o Sr. Everett," disse Poirot. "Um ator de talento considerável. Telefonei-lhe esta tarde. A tinta fosforescente e a lanterna foram as suas próprias contribuições profissionais." Olhou para mim. "E não toque na mão direita da Sra. Maltravers, Hastings. Quando as luzes se apagaram peguei nas duas mãos dela nas minhas por um momento - a mão direita em particular. O vermelho que viu é tinta." Dirigiu-se para a janela. "O Inspetor Japp esteve no jardim durante tudo. Ele foi responsável pelas pancadas."
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Deixámos o inspetor a completar o seu trabalho e caminhamos de volta na escuridão. A chuva tinha chegado e o vento era forte contra nós.
"Três coisas me preocuparam," disse Poirot, contornando uma poça. "Primeiro: o doutor tinha a impressão de que Maltravers era um Christian Scientist - um homem que não consultava médicos. Essa impressão só podia ter vindo da Sra. Maltravers. Mas ela disse-me que o seu marido tinha medo grave pela sua saúde e tinha assegurado a vida porque acreditava que estava a morrer. Um homem com medo grave de morrer não recusa ver médicos. As duas histórias não se encaixavam no mesmo homem."
"Ela disse ao doutor uma história para garantir que ele não examinaria o corpo demasiado cuidadosamente." "Precisamente. Segundo: ela tinha claramente medo quando o Capitão Black reapareceu. Uma viúva a lamentar-se não teria medo. Terceiro -" Ele fez uma pausa. "As suas pálpebras, Hastings. Estavam pintadas. Pesadamente, para simular a aparência de choro prolongado. Os seus olhos não estavam inchados de forma alguma. Não notou isto."
Não respondi.
"Então tinha duas possibilidades. A história do jantar de Black sugeriu a Maltravers um método de suicídio? Ou sugeriu à sua mulher um método de assassinato?" Levantou o colarinho. "Conclui o último. Um homem a disparar-se naquela posição - rifle colocado na boca - teria tido dificuldade em alcançar o gatilho. Teria quase certamente usado o pé. O que significa que primeiro teria removido a bota. Se a bota tivesse estado descalça quando o corpo foi encontrado, alguém teria dito. Ninguém disse."
"Então ela pediu-lhe para lhe mostrar como podia ser feito."
"Ela tinha ouvido a história em segunda mão do marido, que a tinha ouvido de Black ao jantar. Na tarde seguinte disse ao marido que não compreendia como tal coisa era possível. Podia demonstrar? Ele era o tipo de homem que o faria. Colocou o rifle na boca para lhe mostrar. Ela agachou-se, colocou o dedo no gatilho, disse algo ligeiro -" Ele parou de caminhar por um momento. "E pressionou."
As luzes da aldeia estavam à nossa frente.
"Ela casou com ele por dinheiro," disse Poirot. "Quando compreendeu que ele não tinha dinheiro, arranjou para ter muito dinheiro de seguro em seu lugar." Começou a caminhar novamente. "É uma história muito antiga, mon ami. Apenas o método era novo."