O fim de semana seguinte não provou ser a nossa última aventura durante algum tempo. Uma questão de consequência muito maior já se aproximava de nós, embora não soubéssemos disso naquela altura.
Sou agora capaz de contar o que não pôde ser revelado durante a guerra - o relato verdadeiro de como Hercule Poirot impediu uma catástrofe que os jornais nunca noticiaram e o público nunca soube que havia ocorrido.
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Era uma noite ordinária nos aposentos de Poirot. Ele estava sentado à mesa, a trabalhar num fato cinzento com uma esponja húmida, levantando-o a intervalos para examinar o seu progresso. Eu tinha o jornal da noite.
"Viu isto, Poirot? Alguém disparou sobre o Primeiro-Ministro. Um rifle. A bala tocou-lhe a face."
Poirot pousou a esponja. "Um rifle," repetiu ele. "Que coisa desajeitada. Que coisa ultrapassada." Abanou a cabeça como se alguém lhe tivesse mostrado um movimento amador no xadrez.
"O homem poderia ter sido morto."
"Poderia. E contudo, não foi." Pegou na esponja novamente.
Antes de eu poder responder, a Sra. Pearson bateu à porta e abriu-a. "Dois senhores desejam vê-lo, senhor. Recusaram-se a dar os seus nomes."
Os dois homens que entraram eram conhecidos pela maior parte da Grã-Bretanha, embora eu nunca tivesse esperado vê-los nestes aposentos modestos. Reconheci o Lorde Estair, Líder da Câmara dos Comuns, pelas suas fotografias - um homem alto e magro com olhos cansados. O segundo homem era o Sr. Bernard Dodge, membro do Gabinete de Guerra, mais baixo e visivelmente impaciente.
O Lorde Estair olhou para mim.
"O meu amigo Capitão Hastings," disse Poirot. "Pode falar perante ele como perante mim."
"Vá em frente com isto, Estair," disse Dodge.
O Lorde Estair acenou com a cabeça. "M. Poirot, este assunto diz respeito ao Primeiro-Ministro. Requer a sua discrição absoluta."
"Tem a minha palavra."
"O ataque de rifle desta tarde é já um problema de ontem." O Lorde Estair fez uma pausa. "O Primeiro-Ministro foi raptado."
Olhei para ele fixamente. A palavra parecia pertencer a uma categoria diferente de acontecimento do que qualquer coisa que eu tivesse esperado ouvir.
"Raptado," disse Poirot tranquilamente. "Prossiga."
O Lorde Estair explicou. Mais cedo, Dodge tinha dito que o tempo era tudo. Poirot perguntou o que ele queria dizer. A Conferência Aliada seria realizada na noite seguinte - às nove horas, Versalhes. A presença do Primeiro-Ministro não era meramente desejável. Sem ele, era possível um acordo de paz prematuro. Um muito desastroso.
Poirot olhou para o relógio. "Vinte e quatro horas e um quarto," disse ele.
O Lorde Estair continuou. O Primeiro-Ministro tinha atravessado para a França naquela manhã num destruidor. Em Boulogne, um carro veio ao seu encontro - com as marcações correctas, as credenciais correctas, um dos ajudantes do Comandante-em-Chefe no lugar do passageiro. Excepto que o carro não era o correcto, e o ajudante não era o ajudante real. O carro real e o ajudante real foram encontrados amarrados numa estrada secundária. O carro falso não foi encontrado apesar da polícia militar e de Scotland Yard trabalharem na zona desde a manhã.
Um bater à porta. Um jovem oficial entrou e entregou a Poirot um telegrama descodificado. Poirot leu-o e passou-o ao Lorde Estair. O secretário do Primeiro-Ministro, Capitão Daniels, tinha sido encontrado numa quinta - cloroformizado, amordaçado, amarrado. Ele lembrava-se apenas de algo pressionado sobre o seu rosto. O Primeiro-Ministro não tinha sido encontrado.
"Conte-me tudo desde o início," disse Poirot, "incluindo o disparo."
O Lorde Estair recostou-se na cadeira.
Na noite anterior, o Primeiro-Ministro e o Capitão Daniels tinham conduzido até Windsor para uma audiência. Regressaram cedo naquela manhã. No caminho de regresso, o carro saiu da estrada principal numa curva - não de forma suficientemente acentuada para a escolta de polícia que seguia na estrada principal reparar. Numa estrada tranquila, homens mascarados pararam o carro. O motorista, um homem chamado O'Murphy, travou. Alguém disparou duas vezes. O primeiro disparo tocou a face do Primeiro-Ministro. O'Murphy então conduziu directamente pelos homens e abriu caminho.
O Primeiro-Ministro fez tratar da ferida num hospital de campanha perto dali, não dando o seu nome. Ele continuou então para Charing Cross, onde um comboio especial o aguardava, e partiu para Dover. Tudo parecia estar a correr normalmente.
Depois de o deixar, o carro de O'Murphy foi encontrado fora de um restaurante em Soho - um lugar conhecido pelos serviços de inteligência como ponto de encontro para agentes alemães. O próprio O'Murphy tinha desaparecido.
"Capitão Daniels," disse Poirot. "Conte-me sobre ele."
Sem família particular. Exército Inglês, serviço distinguido. Ele falava sete línguas - era por isso que o Primeiro-Ministro o tinha escolhido para a viagem a França. Ele tinha duas tias: uma Sra. Everard em Hampstead, e uma Menina Daniels perto de Ascot.
"A ligação de Ascot fica perto de Windsor," acrescentou o Lorde Estair. "Investigámos. Nada." "E O'Murphy?" "Irlandês. Condado de Clare." "Obrigado." Poirot levantou-se. "Farei o que puder."
Depois de eles partirem, Poirot já estava a mexer-se para empacotar uma pequena mala. "O rapto é mais útil para o inimigo do que a morte," disse ele, dobrando uma camisa com precisão. "Um Primeiro-Ministro morto é substituído. Um desaparecido cria paralisia. Eles podem negociar - vendê-lo de volta a um lado, ameaçar o outro, recolher dinheiro de ambos. E não são enforcados por isso como seriam pelo assassinato." Fechou a mala com um clique. "Mas o disparo perturba-me enormemente."
"Porquê?" "Porque se o rapto já estava arranjado, o disparo era desnecessário. Arriscava tudo - podia tê-lo matado, e um homem morto não pode ser raptado. Chama atenção da polícia. Não faz sentido." Pegou no seu casaco. "Um desses dois homens - Daniels ou O'Murphy - dirigiu esse carro para fora da estrada principal. Se era O'Murphy a agir sozinho, o Primeiro-Ministro não teria sabido. Mas O'Murphy então conduziu para a frente através dos atacantes e muito provavelmente salvou a vida do homem. Estas coisas não se encaixam. Não ainda."
Dodge encontrou-nos em Charing Cross. Apresentou o Detetive Barnes de Scotland Yard e o Major Norman, ambos colocados à disposição de Poirot. Na plataforma também vi o Inspector Detetive Japp, com quem Poirot tinha trabalhado antes.
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"O meu dinheiro diz que ele está vivo," disse Japp, apertando a mão a Poirot. "Mais algumas horas e tê-lo-emos." Ele estava confiante e breve. Poirot sorriu educadamente e não disse nada.
No comboio, Barnes e Norman espalharam mapas sobre a mesa e traçaram rotas. Poirot sentou-se em frente deles com as mãos cruzadas e olhou para o escuro. Ele não tocou nos mapas.
A travessia foi áspera. Poirot teve muito mal de mar e ficou no seu camarote cuidando de nada excepto da sua própria miséria, trabalhando através de algum método de respiração que ele disse que ajudava, embora não parecesse ajudar muito. Quando atracámos em Boulogne ele estava recuperado, pálido mas direito. Atrás de nós, Japp e Barnes ainda estavam a debater se o Primeiro-Ministro tinha sido transferido para outro carro ou colocado num navio. Poirot desceu a prancha sem oferecer uma opinião sobre nenhuma das duas teorias.
O Major Norman reportou que um carro militar estava à espera.
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"Obrigado," disse Poirot. "Não o necessitamos."
Ele levou-nos em vez disso a um hotel junto ao cais e pediu uma sala privada. Quando estávamos sentados, ele olhou ao redor da mesa.
"Cavalheiros," disse ele, "o trabalho de detetor real é realizado aqui." Tocou a sua testa. "Não examinando marcas de pneus e restos de cigarro em estradas de campo. Na verdade, comêço a pensar que foi completamente desnecessário vir a França."
Barnes olhou para Norman. Norman olhou para mim. Poirot sentou-se, cruzou os braços, e não disse mais nada.
Ele ficou assim durante cinco horas. Barnes tornou-se desdenh. Norman passeou. Eu sentei e tentei ler e falhei. Ocasionalmente alguém sugeria que contactássemos a polícia militar, conduzíssemos para a quinta onde Daniels tinha sido encontrado, examinássemos a estrada onde o carro falso tinha encontrado o Primeiro-Ministro. Poirot não respondeu.
Enão, abruptamente, levantou-se. "Fui um imbecil," disse ele. "Mas vejo-o agora. Devemos regressar a Inglaterra."
"Regressar a-" começou Norman.
"O assunto começou em Inglaterra. A resposta está em Inglaterra. Vamos regressar."
Houve objeções. Poirot ouviu cada uma delas e então saiu do hotel em direcção ao cais. Nós seguimos.
Na travessia, sentindo-me consideravelmente melhor desta vez, Poirot falou tranquilamente com Norman durante alguns minutos. Assim que chegámos a Dover, Norman enviou vários telegramas.
Um carro da polícia estava à espera em Londres com uma lista que Poirot tinha enviado por fio de Dover - hospitais de campanha, todos eles a oeste de Londres, dentro de um certo raio. Conduzimos através da cidade e ao longo da estrada de Bath. Através de Windsor. Em direcção a Ascot. Realizei, observando a estrada, para onde estávamos a ir.
A vivenda era arrumada e anódina. Poirot entrou, falou brevemente com alguém, e voltou ao carro abanando a cabeça. Não aqui. Não o que ele necessitava.
Continuámos. Em cada hospital de campanha ao longo da rota, Poirot entrou e fez as suas perguntas. Em cada um a sua atitude, quando regressava ao carro, era fraccionalmente mais estabelecida.
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Depois da última paragem, ele falou novamente com Norman. Norman deu instruções ao condutor. Virámos para norte, de volta para Londres, nos subúrbios. Parámos numa estrada secundária onde um segundo carro com dois oficiais à paisana estava à espera.
Ambos os carros prosseguiram juntos para uma casa alta que se erguia pelos seus próprios terrenos.
Poirot e Barnes apresentaram um mandado de busca à porta. Uma mulher tentou fechar a porta. Poirot pôs o seu pé contra a ombreira e tocou uma buzina. Os outros oficiais vieram através do portão a correr. Três pessoas foram arrestadas - uma mulher e dois homens. A mulher e um homem foram colocados no segundo carro. O outro homem foi colocado no nosso.
"Hastings," disse Poirot, acomodando-se no assento ao meu lado. "O'Murphy." O homem não disse nada. A sua face estava fechada e imóvel.
Conduzimos para norte. Quando vi o solo plano e escuro do Aeródromo de Hendon à frente, assumi que Poirot pretendia voar de volta a Versalhes antes da conferência.
"Um telegrama seria mais rápido," disse eu. "Se quer enviar palavra para a frente-"
"O que tenho de entregar não pode ser enviado por telegrama."
Um jovem piloto do Corpo de Aviação - Capitão Lyall - estava à espera junto a um avião na borda do campo. Ele saudou e disse que estava pronto para partir imediatamente.
Poirot avançou para o lado. Ele apontou para o segundo carro, que se tinha detido atrás de nós.
Uma figura saiu. Conhecia a face de uma centena de fotografias de jornal. Ele era mais magro do que naquelas fotografias, e havia sangue seco na sua face, mas estava de pé direito e olhava ao redor do aeródromo com olhos claros e aguçados.
Era o Primeiro-Ministro.
Na condução de regresso a Londres, Poirot explicou.
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"MacAdam nunca saiu de Inglaterra," disse ele. "Na estrada de regresso de Windsor, enquanto o carro se movia - tranquilamente, de modo que O'Murphy não ouvisse nada através da divisória - Daniels pressionou um pano cloroformizado sobre a face do Primeiro-Ministro. Quando o homem estava inconsciente, Daniels falou através do tubo de comunicação e dirigiu O'Murphy para sair da estrada principal. Ele disse-lhe que havia uma mudança de rota."
Pensei nos homens mascarados, nos disparos. "Então quem arranjou a emboscada?"
"Daniels arranjou tudo. Os homens na estrada eram as suas pessoas. Eles tinham um segundo carro com eles, posicionado para parecer como se tivesse avariado. Quando O'Murphy parou, um dos homens de Daniels usou um anestésico de ação rápida nele também. Ambos os homens - o Primeiro-Ministro real e o O'Murphy real - foram movidos para o segundo carro e conduzidos para longe. Substitutos tomaram os seus lugares no carro original. Um homem cuja face estava agora enfaixada sentou-se no lugar do Primeiro-Ministro."
"A ferida," disse eu.
"Sim. Vê a elegância disto. Porque o Primeiro-Ministro era conhecido por ter sido tocado por uma bala de rifle, uma face enfaixada não requeria explicação. MacAdam era também conhecido por descansar a sua voz antes de discursos principais. Assim o falso Primeiro-Ministro estava em silêncio, a sua face estava coberta, e Daniels gerenciou cada interação ao longo da rota para França. Ninguém que o pudesse ter reconhecido de perto lhe foi permitido aproximar-se."
"Mas em Versalhes-"
"Em Versalhes, um escrutínio atento teria sido inevitável. Assim o falso Primeiro-Ministro desapareceu antes de chegar a Versalhes. Daniels então teve de dar conta da sua própria presença na cena, assim ele teve a si próprio amarrado, amordaçado e cloroformizado - não demasiadamente profundamente - e esperou para ser encontrado." A voz de Poirot era uniforme, precisa. "Um homem muito competente, Daniels."
"E o Primeiro-Ministro real durante todo esse tempo estava em Hampstead?"
"Na casa de Sra. Everard, que é a tia de Daniels só de nome. O seu nome real é Frau Bertha Ebenthal. A polícia tem procurado por ela durante algum tempo."
Ele fez uma pausa. "O'Murphy estava lá também. Ele não tinha nada a ver com nada disto. Ele era simplesmente um condutor que parou quando lhe disseram para parar."
"Mas como soube procurar em Hampstead? Como soube que ele ainda estava em Inglaterra?"
Poirot juntou as pontas dos dedos. "O disparo. Não o pude deixar de lado. Se o rapto estava arranjado com antecedência, o ataque de rifle não tinha qualquer propósito excepto pôr uma ligadura na face do Primeiro-Ministro. Essa é uma coisa peculiar para arriscar uma operação inteira, a menos que a ligadura fosse essencial para a operação. Uma vez que compreendi isto, perguntei a mim próprio: o que cobre uma ligadura? Não apenas uma ferida. Cobre uma face que de outra forma pudesse ser reconhecida."
Ele olhou pela janela para as ruas que passavam.
Depois disso trabalhei para trás ao longo da rota e visitei os hospitais de campanha entre Windsor e Londres. MacAdam era dito ter tido a sua ferida tratada num deles. Mas não um deles tinha tratado qualquer tal paciente naquela manhã. Assim a ferida não foi tratada num hospital. Foi tratada por Daniels, como parte da preparação, antes do carro chegar a Windsor no regresso.
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Ele virou-se de volta para mim. "Uma vez que soube isto, soube que o Primeiro-Ministro real nunca tinha chegado a França. Soube que ele estava a ser mantido por alguém conectado com Daniels. A casa de Hampstead era a escolha óbvia."
Na manhã seguinte um telegrama chegou aos aposentos de Poirot. Não havia ponto de origem e sem assinatura. Lia: *Atempadamente.*
Naquela noite os jornais publicaram reportagens da Conferência Aliada em Versalhes. Os correspondentes notaram, das suas várias maneiras, que o discurso do Primeiro-Ministro tinha feito uma impressão profunda e duradoura em todos quantos o ouviram.
Poirot leu as reportagens sobre o seu café, dobrou os jornais arrumadamente, e não disse nada de todo.