A Senhorita Violet Marsh chegou exactamente às onze horas. Era uma rapariga jovem com uma atitude composta e olhos diretos, e sentou-se diante de Poirot sem qualquer dos nervosismos que ele tão frequentemente observava em clientes que se dirigiam a ele com problemas.
"Vou contar-lhe a situação de forma clara," disse ela, "porque se trata de uma situação clara, ainda que incomum." "Bem. Prossiga, senhorita."
Seu pai e o seu tio Andrew tinham sido irmãos, filhos de um agricultor de Devonshire. O pai dela morrera quando tinha seis anos, a mãe quando tinha catorze. O tio Andrew tinha partido para a Austrália, feito uma fortuna considerável através de especulação em terras e regressado à Inglaterra, onde comprara uma pequena propriedade em Devonshire chamada Crabtree Manor. Levara Violet para viver com ele e tratara-a, na maior parte dos aspectos, como se fosse sua própria filha.
"Na maior parte dos aspectos," repetiu Poirot.
"Acreditava que as mulheres deviam aprender a manter uma casa e nada mais." Disse-o sem qualquer amargura. "Eu não concordava. Sabia que não tinha talento para trabalhos domésticos e capacidade considerável para estudo académico. Discutimos muito sobre o assunto." Tinha ganho uma bolsa e pretendia ir para Girton. O seu tio dissera-lhe claramente que, se persistisse naquilo que ele chamava as suas ideias inovadoras, não herdaria nada dele. Ela dissera-lhe que o estimava mas que tinha de viver a sua própria vida. As suas últimas palavras tinham sido que confrontaria a sua inteligência com o conhecimento de livros dela, e veriam o que resultaria.
"Isso foi há nove anos. Visitava-o ocasionalmente. Permanecemos em bom termo, embora as suas perspectivas não mudassem. Nunca mencionou uma única vez o meu grau académico." Fez uma pausa. "Um mês atrás, ele faleceu."
O testamento, explicou, estabelecia que Crabtree Manor e todo o seu conteúdo estariam à sua disposição durante um ano. Durante esse ano a sua inteligência poderia demonstrar-se. Se ao final de doze meses a sua astúcia se tivesse mostrado superior à dela, a casa e toda a sua fortuna passariam para várias instituições de caridade.
"Considera isto injusto?" perguntou Poirot.
"Considero inteiramente justo. Ele avisou-me, e fiz a minha escolha livremente. Estava a cumprir a sua palavra." Fechou as mãos sobre o regaço. "Vim pedir-lhe que encontre o que está escondido — seja dinheiro ou um segundo testamento. Considero isto um desafio do seu lado, e tenho intenção de o aceitar."
Poirot examinou o testamento que ela tinha trazido. Estava escrito num formulário de testamento impresso, não elaborado por um advogado, e testemunhado por um casal chamado Baker que vivia em Crabtree Manor e cuidava do velho senhor. Perguntou se o testamento poderia ser contestado.
"Não o consideraria," disse ela.
Notou que o testamento estava datado de vinte e cinco de Março às onze horas da manhã. Bateu com os dedos no papel, pensativo. Qualquer testamento feito mesmo meia hora depois dessa hora o superaria.
Disse-lhe que aceitaria o caso. Ele e Hastings, disse, viajariam para Crabtree Manor nessa noite.
Chegaram tarde e foram recebidos pelos Bakers, um casal calmo e competente que tinha sido avisado por telegrama para os esperar. Após a ceia e uma noite de repouso, reuniram-se na manhã seguinte no gabinete do falecido Sr. Marsh.
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Era uma sala dominada por uma secretária com tampa de rolo, os seus muitos compartimentos repletos de papéis que tinham sido classificados e organizados com considerável cuidado. Cada documento tinha uma etiqueta bem impressa numa caligrafia pequena e precisa. Poirot moveu-se pela sala lentamente, examinando tudo, tocando em nada, os seus olhos percorrendo prateleira após prateleira com uma expressão de satisfação profissional.
"Um homem metódico," disse. "Tudo tem o seu lugar, tudo está devidamente identificado." Parou. Estava a olhar para a chave que pendia na fechadura da secretária com tampa de rolo. Tinha uma etiqueta, como tudo o resto na sala, mas esta etiqueta era um envelope sujo, e a caligrafia nele era contraída e totalmente diferente do traço elegante em todas as outras etiquetas da sala.
"Isto," disse Poirot silenciosamente, "não é consistente."
Deixou-a onde estava. Chamou os Bakers.
Eram um casal sólido, não facilmente perturbado. Sim, tinham testemunhado o testamento. Baker tinha sido enviado previamente para a vila próxima para recolher dois formulários de testamento impressos. A assinatura tinha ocorrido por volta das onze horas — a Sra. Baker tinha certeza da hora porque o seu leite tinha transbordado na panela enquanto estavam fora da cozinha. Uma hora mais tarde, o patrão tinha chamado-os de volta. Tinha cometido um erro no primeiro, disse-lhes, e tinha-o rasgado. Precisava que o assinassem pela segunda vez. Posteriormente tinha dado a cada um deles uma quantia em dinheiro, explicando que não lhes deixava nada no testamento mas tinha intenção de lhes dar a mesma quantia a cada ano que vivesse, como um fundo para mais tarde. Após a segunda assinatura, o Sr. Marsh tinha saído para a vila para pagar contas de comerciantes.
Poirot levantou a chave com o seu envelope sujo e perguntou a Baker se a caligrafia nela era do seu patrão.
"Sim," disse Baker. Havia, pensou Hastings, apenas a mais breve hesitação antes da palavra sair.
Poirot perguntou se alguns estranhos tinham visitado a casa nos últimos três anos. Baker disse que não. A sua esposa lembrou-o dos operários. Aproximadamente dois anos e meio antes, homens tinham vindo de Plymouth para realizar reparações. O patrão não tinha permitido a qualquer um dos Bakers entrar no gabinete enquanto o trabalho estava em curso. Não conseguiam recordar o nome da empresa.
Poirot agradeceu-lhes e mandou-os sair.
"Ele fez um segundo testamento," disse Poirot, "e depois contratou operários para criarem um esconderijo para ele. Não vamos procurar pela casa. Vamos para Plymouth."
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Demorou várias tentativas, mas encontraram a empresa certa antes da tarde ter terminado. Dois dos seus operários recordavam o trabalho claramente. Entre outras tarefas, tinham levantado um dos tijolos da chaminé antiga, escavado uma cavidade por baixo, e cortado o tijolo de modo que não fosse visível nenhuma junção quando era recolocado. Pressionar o segundo tijolo do fim fazia toda a secção subir. O velho senhor, disse o operário chamado Coghan, tinha sido muito exigente quanto a isto. Muito exigente na verdade.
Regressaram a Crabtree Manor, fecharam o gabinete à chave, e seguiram as instruções exactamente. A secção escondida subiu sem dificuldade. Poirot estendeu a mão para a cavidade, e a sua expressão mudou.
Retirou a mão. Nela havia um fragmento carbonizado de papel rígido com os restos parciais de uma assinatura — o nome de Baker, ou o início dele — e nada mais de qualquer utilidade.
Ficaram em silêncio durante um momento.
"Quem a destruiu?" perguntou Hastings.
"Os Bakers não tinham razão para o fazer. Estão em melhor situação se a Senhorita Marsh herdar do que se a propriedade passar para instituições de caridade." Poirot colocou o fragmento cuidadosamente. "É também possível que o Sr. Marsh tenha mudado de ideias e a tenha destruído ele próprio."
"Acredita nisso?"
"Considero uma possibilidade razoável. Um homem tem o direito de mudar de ideias." Olhou para a cavidade vazia durante um longo momento. "Fizemos o que era possível fazer. O esconderijo foi encontrado. O facto de estar vazio não reflecte mal sobre a Senhorita Marsh."
Saíram para apanhar o comboio para Londres. Hastings, adormecido pelo ritmo das carruagens, cochilava. O comboio tinha apenas saído de Taunton quando Poirot fez um som agudo e agarrou Hastings pelo braço.
"Saia. Agora. Saia do comboio."
"Poirot, o que é que está a fazer —"
"Agora, Hastings. Salte."
Estavam na plataforma em Taunton, as malas ainda a bordo, a observar o comboio desaparecer na distância, antes de Hastings ter compreendido completamente o que tinha acontecido.
"Sou um tolo," disse Poirot, com grande veemência. "Um tolo da pior espécie. Deixei os livros de contas dos comerciantes completamente fora do meu raciocínio."
"Que livros de contas dos comerciantes? Poirot, explique-se."
"Ainda não. Venha."
Não disse mais nada. Apanharam um comboio lento para Exeter, alugaram um carro, e chegaram de volta a Crabtree Manor nas primeiras horas da manhã.
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No gabinete, Poirot acendeu o fogo, foi directamente à secretária, e removeu a chave. Tirou o envelope sujo dela, examinou-o durante um momento, e depois cortou-o cuidadosamente ao longo das costuras e colocou-o sobre a mesa, com a superfície interior virada para cima.
Aproximou-o das chamas.
A escrita apareceu. Era breve e clara: um testamento deixando tudo para Violet Marsh, datado de vinte e cinco de Março às meia e meia da tarde, e testemunhado por Albert Pike, confeiteiro, e Jessie Pike, mulher casada.
Hastings fixou o olhar nele. "É legal?"
"Não existe nenhuma lei," disse Poirot, "contra escrever um testamento numa mistura de tinta que desaparece e tinta simpática. A intenção do testador é perfeitamente clara. A Senhorita Marsh é a sua única parente viva."
Colocou o envelope sobre a mesa e afastou-se do fogo. "Obteve dois formulários de testamento e mandou os Bakers assinarem duas vezes, o que lhe deu a sua hora de cobertura. Depois foi para a vila — com uma caneta de tinta-da-china cheia da sua mistura de tintas — escreveu o seu verdadeiro testamento no interior deste envelope, e encontrou a sua razão para que o confeiteiro e a sua esposa assinassem. Depois anexou-o à chave do seu próprio gabinete. À vista de todos. A etiqueta que não correspondia. A caligrafia que era diferente."
Abanou a cabeça. "Antecipou cada passo que um pesquisador cuidadoso daria. Os operários, a cavidade escondida, o tijolo que sobe. Esperava que ela encontrasse tudo isto."
"Mas ela não encontrou," disse Hastings. "Contratou-o. Isso não significa que o velho senhor venceu?"
Poirot apanhou o envelope com o cuidado que se dá a um documento que acabava de decidir uma fortuna considerável.
"Pelo contrário. Ela reconheceu os limites do seu próprio conhecimento. Compreendeu a natureza do problema e imediatamente o colocou nas mãos de um especialista. Isso, meu amigo, é precisamente o que uma educação em Girton é suposta produzir." Quase sorriu. "O Sr. Marsh propôs-se testar se o conhecimento da sua sobrinha era de qualquer utilidade prática. Ela demonstrou que era. Penso que, se pudesse sabê-lo, ficaria satisfeito."
Colocou o testamento sobre a secretária ao lado do fogo que se extinguia e começou a compor na sua mente a carta que enviaria à Senhorita Violet Marsh na manhã seguinte.